November 1, 2007

Quantos caíram neste abismo escancarado sobre o longínquo?

E eu hei-de desaparecer, num qualquer dia do mundo, isso é o mais certo.

Tudo o que foi, e que canta e luta e brilha e quer, há-de ficar paralisado.

Tal como o verde dos meus olhos, e a minha voz terna, e o ouro dos meus cabelos.

Há-de continuar a vida, o seu pão, o seu sal e o esquecimento dos dias

E tudo será como se eu nunca tivesse visto a luz do céu.

Eu, que mudava de expressão como uma criança, só fugazmente irrequieta,

Que adorava o momento em que as achas se animam quando se tingem de cinza,

E o violoncelo, e as correrias, e o repicar dos sinos,

Eu, tão viva e verdadeira, acariciada pela terra!

A todos vós, pouco importa, não faço distinções, próximos e distantes,

Peço-vos uma segura confiança, imploro-vos que me amem

Dia e noite, pela voz e pela escrita, por todos os meus sins sem azedume,

Porque tantas vezes estou tão triste, porque só tenho vinte anos,

Por causa do meu perdão inevitável das ofensas passadas,

Por toda a minha incontrolável ternura e o meu ar demasiado orgulhoso,

E a louca velocidade dos desenlaces, pelo que mostro, pelo que realmente sou,

Ouçam-me, é preciso ainda amar-me porque hei-de morrer.


de Marina Tsvétaieva

(como eu gosto deste poema)