October 30, 2007

Depois de Auschwitz


A ira,
tão preta como um gancho,
atinge-me.
Cada dia,
cada Nazi
tomava, às 8:00, um bebé
e salteava-o para o pequeno-almoço
na sua frigideira.

E a morte contempla com olhar casual
e tira o lixo das suas unhas.

O homem é perverso,
digo em voz alta.
O homem é uma flor
que deve ser queimada,
digo em voz alta.
O homem
é um pássaro cheio de lama,
digo em voz alta.

E a morte contempla com olhar casual
e coça o ânus.

O homem com seus pequenos dedos dos pés rosados,
com seus dedos milagreiros
não é um templo
mas um anexo,
digo em voz alta.
Que o homem nunca mais levante sua chávena de chá.
Que nunca mais escreva um livro.
Nunca mais calce seu sapato.
Nem erga mais os olhos
na noite macia de Julho.
Nunca.Nunca.Nunca.Nunca.Nunca.
Digo essas coisas em voz alta.

Peço ao Senhor que não ouça.

de Anne Sexton

(tradução J.T. Parreira)
versão original