September 17, 2007

deambulações oblíquas

Se escrevo é porque nunca vejo mesmo quando vejo
e porque o que sinto mesmo quando me deslumbro é sempre indefinido
mas não escrevo para chegar a uma conclusão
nem para determinar o que é inexprimível

Embora não veja eu vejo sempre um pouco
e com esse pouco através da palavra posso chegar a ver
as qualidades que nos sugerem um mundo outro
que é a sua identidade que nós mal conhecemos

O que me deslumbra de súbito é um frémito um fulgor
que numa só coisa pode ser uma chama de universo
e nesse vislumbre vejo a possibilidade de ser outro
ou de ser aquele que sou como possibilidade pura

Quando uma qualidade do mundo resplandece
é o aquém de nós que se levanta
e é dele que parto é para ele que vou


António Ramos Rosa